Pedro Chagas Freitas faz um apelo emocionante às mulheres que recusam desaparecer

Num gesto que mistura admiração e inquietação, Pedro Chagas Freitas dirigiu-se diretamente às mulheres que se recusam a encolher, confessando desde as primeiras linhas: "Escrevo-vos por inveja. Tenho inveja da vossa liberdade, da vossa coragem. Nunca foi fácil ser uma mulher que não baixa a voz, que não segue o guião. Acho que está pior, acho que está cada vez pior".
O escritor diagnostica um cenário cada vez mais hostil para quem ousa questionar o estabelecido. Segundo Chagas Freitas, existe um custo bem definido para quem não se conforma: a solidão e o escrutínio permanente. "Há uma espécie de solidão em quem não se encolhe. Quem não se encolhe paga em comentários, em rótulos: se dizem o que pensam, são arrogantes; se não pedem licença, são prepotentes; se levantam a voz, são histéricas; se não aceitam o papel de figurantes, são problemáticas; se não são perfeitas, são uma vergonha."
O autor identifica ainda um padrão social profundamente enraizado. A mulher que consegue aceitação social é aquela que permanece "suave, manejável, agradecida: contida". Quando não segue este molde, enfrenta acusações de ser complicada ou dramática. "É a tentativa desesperada de domesticar quem não quer ceder", observa Chagas Freitas.
Numa reflexão particularmente perspicaz, o escritor aponta que frequentemente são outras mulheres que tentam impor esta conformidade. "Muitas vezes, quem quer domesticar estas mulheres são outras mulheres. É uma herança: décadas de treino para agradar não se desinstalam facilmente."
Na conclusão, Chagas Freitas abandona qualquer romantismo. Reconhece que estas mulheres "erram. Podem exagerar, podem falhar. Não acertam sempre, não estão sempre correctas no que fazem, no que dizem." Mas deixa um pensamento provocador: quando uma mulher vê outra recusar-se a diminuir, percebe que também poderia fazê-lo se estivesse disposta a pagar o preço.
O apelo final é direto e visceral: "Esta porra toda não precisa de mulheres exemplares; precisa de mulheres que não desaparecem para permitir a paz podre do conforto alheio. Por favor, não desapareçam. Obrigado".
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